domingo, 24 de julho de 2016

CONTO ANALOGIA DA ASA DO SENTIMENTO


Aproximadamente entre 1.600 ou 1.700 anos antes de Cristo, numa região árida ao norte da Pérsia, em uma noite fria do deserto, pastores nômades acampavam à beira da fogueira, enquanto vigiavam à distância seus rebanhos. Entre eles um mago nômade acampava numa das partes mais altas da planície, contemplando as estrelas.
Um jovem pastor ao notá-lo ao longe, envolto pelo silêncio da solidão da noite, levantou-se e dirigiu-se em direção àquele insólito ancião. Estando próximo, chamou a sua atenção, questionando-o:
            - Posso dividir contigo o calor dessa fogueira?
O ancião voltou-se para ele, e com apenas um gesto, convidou-o a sentar-se.
O silêncio os envolvia, pois o ancião parecia comunicar-se com a essência que dava vida às estrelas, e logo o jovem pastor, com a face voltada para o céu, quebrou o silêncio, questionando:
- Quem chega mais rápido, a luz intensa de uma estrela aos olhos do observador ou a luz dos olhos do observador até uma estrela?
E o ancião respondeu:
- É a luz dos olhos do observador que chega até a estrela, pois são poucos os homens que abandonam suas ansiedades terrenas e deixam que seus olhos naveguem em direção à luz de uma estrela.
E o jovem pastor continuou:
- Queria ter asas para poder voar nessa imensidão.
- Todos nós temos asas, filho – respondeu o ancião, acrescentando – somos como deuses que não dominam o seu poder.
E o jovem voltou a questionar:
- Como podemos descobrir o poder em nós e dominá-lo?
- Seja como um rio em seu curso silencioso, pois seria impossível sentir o poder de uma cachoeira se não fosse o silêncio que repousa no curso do rio. Esta é a única forma, filho, de buscarmos as asas que nos tornarão deuses.
E o jovem, com os olhos brilhantes como as estrelas, busca daquele ser explicações para sanar suas incógnitas:
- Ensina-me, ó mago!
O ancião, voltando a sua face em direção à chama da fogueira, deixa sua voz fluir em uma narrativa enigmática:
- Muito tempo atrás, um povo nômade acampou próximo às cidades da Grécia. Eles adoravam uma deusa mitológica de nome Ishtar. Segundo a lenda, essa deusa se materializava uma vez ao ano e trazia para os sábios, magos e matemáticos os segredos mais distantes sobre a Lei da Física. Dizem que só quem compreendia as palavras da deusa eram os eruditos e os geômetras, ou seja, os homens de sabedoria notável. Poucos conseguiam fitar os seus olhos, pois o seu brilho enlouquecia os fracos. Dizem que a beleza do seu andar era de uma sensualidade tão perfeita que demonstrava ser a divindade mais completa da mitologia persa. Mas, em uma noite na qual estavam todos os sábios à espera de sua materialização entre os mortais, uma caravana de magos egípcios acampou em meio àquela tribo de nômades e entre eles estava Sansés, um dos magos mais versados na Lei da Física. Assim, a noite aconteceu e aquela divindade com aparência de mulher surgiu entre os mortais. No momento em que todos lhe prestavam homenagem, seu olhar os fitou com ternura, vasculhando  os labirintos do sentimento e da mente de cada um, mas, quando a luz de seus olhos fitou os olhos de Sansés, ela se chocou por não conseguir desvendar  seus pensamentos e seus sentimentos, chamando assim a atenção dos que ali estavam, ao verem a divindade em forma de mulher, sendo dominada pelo olhar de um simples mago egípcio. E a deusa, com voz enigmática, questionou:
- Quem és tu, mortal, que consegues esconder de mim os teus pensamentos?
O mago logo se levantou, dirigiu-se à deusa, dizendo-lhe:
- Eu sou o segredo da geometria e da matemática que edificou os templos e as pirâmides. Meu conhecimento não tem início, nem meio e nem fim, pois eu venho da fonte da intuição. Quanto a ti, admirável deusa, tens escondido teus segredos para os simples mortais, mas tu não os podes negar para aquele que consegue ver a tua essência. Digo-te, deusa mulher, que a asa que te torna imperfeita entre os deuses e perfeita entre os mortais é a asa do conhecimento, pois é a única asa que tu veneras. A outra asa que não existe em ti é o poder do sentimento, que tu te negas a viver, temendo sofrer o devaneio da paixão, mas tu não podes me negar que te sentes tão só como a flor única que nasce no topo de uma montanha. Tu temes a vida por temer a solidão. Tu te escondes atrás dos cálculos da Matemática e da Física para esconder dos que te veneram, as tuas fraquezas. É simples: entrega-te ao sentimento e vive o amor como os simples mortais, e assim, a outra asa surgirá e voarás sem limites.
Esta é a analogia da asa do sentimento que leva os seres mortais e imortais a voar plenamente. É simples, tudo está em nossas mãos, somos os únicos responsáveis pelas causas e efeitos de nossas vidas. Somos donos dos nossos destinos.

O Autor

Carlos Reis Agni

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