segunda-feira, 25 de julho de 2011

Lágrimas de um espermatozoide


Capítulo I
– Foi aproximadamente em 1940, que a madrugada daquela noite se entregou à sutil suavidade dos primeiros raios da luz de um novo amanhecer. A neblina que encobria aquela cidade foi desvirginada com o despertar da luz do dia, levando a população daquela cidade à natural e rotineira ansiedade do seu cotidiano.
Em um bairro comum, entre a casas sem nenhum destaque, num aposento de tamanha humildade que agrediria o luxo da nobreza social, despertei para contemplar mais um dia. Dirigi-me à porta que dava acesso à entrada da casa; ao abri-la, passei a observar o céu. Mais uma vez fui tomado por leve sensação e me interroguei: “Quem sou eu? Qual a razão da minha vida e do despertar para mais um dia nesta existência?”
Sei que a resposta estava à minha volta, como o vento, e dentro de mim, adormecida na fonte de meus pensamentos... E lá fora senti a harmonia da liberdade e de todos os seus elementos. Também senti que, se levantasse o braço e apontasse para o infinito, tocaria na alma do mundo contida dentro de mim, chamando-me para fazer parte da coreografia da eterna liberdade. As corriqueiras ações do dia-a-dia me chamavam. Comecei a me preparar para mais um dia de atividade; contentando-me com modesta refeição matutina, apanhei a mochila contendo alguns objetos pessoais e segui em direção à rua, onde me entreguei à busca de atividades. Em meio ao percurso, surgiu um jovem que em seus rápidos passos mostrava-se apressado, passando a acompanhar-me. Logo, começamos a conversar a respeito de coisas peculiares. Após um longo percurso, ele notou que eu estava descalço e questionou-me:
– Andar com os pés descalços não te incomoda?
Eu lhe respondi que naquela manhã decidi não pisar na terra, mas acariciá-la com os pés e fazê-la sentir nossa unidade, e dessa forma contemplar a vida que mantém a minha vida. Ao chegar ao meu destino, nos separamos. Abri o portão de uma notável e extremamente luxuosa residência, dirigi-me à porta e adentrei-a. No centro da sala, um brinquedo chamou a minha atenção, passei a tocá-lo, admirando-o. Naquele instante, ouvi uma voz chamando; logo notei a cozinheira:
– Levante-se, pois já temos atividades para você. Vá até a casinha do cachorro, pegue Fúria, dê-lhe um bom banho.
Dirigi-me ao cão que latia e me olhava como se estivesse saudando um velho companheiro. Ao ver o balde em minhas mãos, ele recuou. Senti então o temor dele em ser molhado. Peguei a sua corrente, tentando acalmá-lo, quando sussurrei:
– Somos iguais! Terei prazer em refrescá-lo, pois o banho fará bem a você. A diferença que nos separa está na consciência e na aparência e o que nos torna iguais é o fluxo da vida.
Ao molhá-lo, ele abanou a cauda, passou a lamber as minhas mãos como se estivesse dizendo sim. Novamente ouvi a voz da cozinheira, notei rapidamente que mais atividades me esperavam. Apanhei os aparatos necessários para mais um serviço cotidiano, peguei o meu amigo Fúria pela corrente e o levei para me fazer companhia. Enquanto ele se aquecia ao sol, passei a lavar um luxuoso carro. Seus latidos me faziam sentir que estava acompanhado, apontando para o veículo, voltei-me para ele e falei:
– Fúria, aqui está a nossa diferença: no passado, cavalos conduziam carruagens, você e seus antepassados eram cães. Nós, homens, inventamos “cavalos” e eles fazem parte dessa “carruagem”. Quanto a você, meu amigo, continua sendo cão.
Dei um sorriso e continuei:
– Nada mudou! Estes são símbolos da transformação. É aqui que começamos a nos separar, em consciência. Só não saberia viver sem a sua companhia.
Ao terminar, o conduzi rumo ao seu habitat, dei-lhe alimento e o deixei só. Retornei a uma luxuosa sala de estar. Observando aquele brinquedo, sentei-me perto e o apanhei. Logo, fui tomado por uma observação: “Quando aquela vitrine nos separou tocar em você era como um sonho... Hoje você está aqui num canto qualquer, sem nenhuma razão, vítima das ansiedades por algo novo; quantos como você que pensam e têm sentimento, estão num canto, ansiosos por um pouco de atenção, querendo ser tocados, acariciados e ouvir ao menos uma palavra”. Toquei-lhe levemente e pensei: “As ansiedades... tolas ansiedades!” Acredito que se todas se juntassem de uma só vez, criar-se-ia uma bomba cuja explosão afetaria os limites da fronteira do universo. Por acaso, serei eu a acender o pavio dessa bomba? Tantos homens notáveis e de uma inteligência brutal, distantes da lapidação da consciência, quase acenderam esse pavio. Naquele instante, ouvi a voz da cozinheira chamando por meu nome, não para mais uma atividade, e sim para uma refeição. Segui até a cozinha, peguei o prato e dirigi-me para o quintal onde me sentei entre as plantas. Logo, notei a presença dos pardais vindo para perto de mim, disputar os grãos de arroz que eu atirava ao chão. Fiquei fascinado pela sincronia de seus vôos e comecei a sorrir. A cozinheira se aproximou e perguntou-me:
– Por que tu sorri tanto com os pardais? O que notas de tão interessante neles?
– A liberdade! A liberdade leva a minha imaginação e eu me vejo neles. Chego a pegar carona nas asas de Ícaro e vou a limites impossíveis, onde não existe o medo. E lá sinto que o meu destino é voar.
Ela continuou a indagar-me:
– Tu não sentes medo?
– Não. Só sinto medo do medo que nasce dentro de mim, pois ele limita meus sonhos.
– Por medo, eu não segui a quem mais amava e não sei se sou ou serei feliz.
– O medo se sacia na mesa da dúvida e a dúvida, por si mesma, ofusca a busca do sonhador.
Naquele momento, ela me olhou com um olhar cabisbaixo. Entreguei-lhe o prato, com um sorriso, dirigi-me ao quarto, troquei de roupas, apanhei a mochila onde meus lápis e cadernos me acompanhavam para uma nova atividade. Segui em direção à porta que me conduziria à saída da casa, e comecei a caminhar. Senti uma vontade imensa de correr... corri muito. O vento invadiu a minha boca, impregnando-me com frescor e suavidade, logo observei à minha frente um velho que se agarrava a um saco como se segurasse a si mesmo. Ao passar, ele me gritou:
– O que tu pensas que és? O vento? Pois saiba, eu já tentei parar o tempo para que ele esperasse que eu saciasse os meus desejos e as minhas ansiedades. Foi quando vi entre os pássaros uma águia, e suas garras afiadas preparando-se para golpear a sua presa. Surpreendi-me com a presa que não dava nenhuma atenção a seu predador, mas se preocupava em golpear uma presa menor. E esta não se preocupava com seu predador, mas sim em golpear sua presa. Também vi germes devorarem presas e seus predadores, até mesmo aqueles que voavam. Vi ainda minhas ansiedades se quebrarem como vidraças, que protegiam a mansão dos meus sonhos. E parte de mim está nos cantos, jogada nas calçadas em ruas do nada. Apenas te pergunto: É o tempo predador de mim?
E a velocidade de meus passos diminuiu lentamente. Dirigindo-me então ao homem, retirei da mochila meu lanche, oferecendo-lhe. Ele estendeu uma das mãos trêmulas, tomou o lanche, falando-me:
– A minha fome já devorou a minha sede de viver, só tenho para te dar em troca o que com a vida aprendi: “A maior missão dada ao homem aqui, é criar seu próprio destino”.
E os seus olhos invadiram os meus. Notei que ele via seu passado em mim. E meus olhos viram, nos seus, o caminho de um futuro incerto. Voltei a caminhar em passos lentos. Meus pensamentos me questionavam, levando-me a uma incógnita onde os “nãos” e os tantos “sins”, dentro de mim, levavam-me a labirintos de dor e prazer. Logo questionei-me: “Por quê?” Notei que já estava perto do colégio onde estudava. Abri os portões e encontrei um amigo segurando um violão que chamou a minha atenção, avisando-me:
– Donai, estás atrasado! A peça irá começar e só tu faltas. Há muitas pessoas influentes presentes e logo será a tua vez de participar.
Ao subir no palco notei que todos me aguardavam. Logo, meu amigo começou a se preparar com o violão para fazer o fundo musical... Uma de minhas colegas, sorrindo, fez um sinal, alertando-me de que eu logo entraria em cena. Ocupando um lugar num canto do palco, fiquei preocupado por ter esquecido de minha fala na peça. As cortinas se abriram e minha colega apresentou-se com uma rosa na mão oferecendo a uma das principais autoridades presentes, passando a se expressar:
– Minha face está oculta por um véu, simbolizando a carência daqueles que não podem gritar. Doei a eles a minha voz e grito ao vosso silêncio, incomodando até mesmo a vós, na tentativa de desnudar as vossas consciências, para que possam estender vossas mãos, e com isso, acabar com as indiferenças entre nós.
Ao finalizar sua fala, ela se retirou. Os olhares se dirigiram a mim. Havia chegado a minha vez, mas eu não sabia o que dizer. Mesmo assim, dirigi-me ao centro do palco, e sem nenhuma palavra, atirei-me ao chão. Entre gestos e expressões desordenados, passei as minhas mãos na face e levantei-me lentamente, dizendo:
– Não tenho palavras a dizer. Quero apenas que ouçam o grito das expressões caladas dos surdos-mudos, que clamam pela atenção de vós, “normais”, mortais, cheios de sutis imperfeições. Eles só querem um pouco de atenção e que noteis que, por trás de suas deficiências, existem seres de grande eficiência levando-vos para a evolução.
Apanhei então uma rosa, dei uma pétala a cada autoridade presente e lhes disse:
– Que essas pétalas se tornem uma rosa em cada um de vós, fazendo desabrochar as vossas consciências.
Não conseguindo conter as lágrimas, retirei-me do palco, deixando-os em total silêncio.
CONTINUAÇÃO>> 

13 comentários:

  1. Q lindoooo...Amei muito lindo toce em si mesmo tornando o sofrimento do coraçao uma so nota de uma musica q arrepende de si oq fez no passado e faz pensar oq fazer para mudar o futuro...........

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  2. muito lindo adorei mesmo!!!!!onde vem todo expiração,sucesso pra te...bjsss

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  3. aaah Muito Legal ' Lindo Mesmo ' Ameeei *-*

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  4. [aaaa]muitoo legaal goostei muitoo

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  5. Nossa imprecionate a sua forma de descrever a liberdade muito interessante mesmo!!

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  6. eeu amei, mas queria este livro impresso, pq tenho problemas nas vistas, e ler ele todo no computador vai ser complicado :/

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